Que país é este que vai às urnas? - por Edison Pires
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Há quase quatro décadas, uma pergunta lançada pela música da Legião Urbana continua ecoando com uma atualidade desconfortável: “Que país é este?”
A pergunta, que nasceu como uma crítica a um Brasil marcado por desigualdades, corrupção e frustrações, poderia perfeitamente ser repetida diante do cenário político atual. Não porque o país não tenha mudado, mas porque, em muitos aspectos, parece continuar preso aos mesmos vícios — agora potencializados pelas redes sociais, pela radicalização e pela incapacidade de se discutir o futuro sem antes destruir o adversário.
Estamos às portas de mais uma eleição e, novamente, a polarização domina o debate. Os lados já estão definidos antes mesmo de muitas propostas serem apresentadas. Há quem vote contra um candidato antes de saber em quem votará. Há quem defenda seu político de estimação independentemente dos erros. E há candidatos que parecem compreender perfeitamente esse jogo.
Afinal, apresentar um projeto exige conhecimento, planejamento e compromisso. Apontar o erro do adversário exige apenas um microfone, uma câmera e uma boa equipe de redes sociais.
É justamente aí que mora um dos maiores problemas desta eleição. Faltam ideias. Faltam projetos palpáveis. Faltam propostas capazes de responder, de forma objetiva, aos problemas que realmente afetam a vida dos brasileiros.
Enquanto isso, sobra indignação.
Os candidatos parecem disputar quem encontra o erro mais grave, a frase mais polêmica ou o escândalo mais conveniente para jogar sobre o adversário. O debate político virou um eterno tribunal, no qual todos acusam, todos condenam e poucos apresentam soluções.
E o eleitor, no meio dessa guerra, continua enfrentando os mesmos problemas: serviços públicos precários, insegurança, dificuldades econômicas, impostos e uma sensação permanente de que o país possui um enorme potencial, mas insiste em não encontrar um caminho para transformá-lo em qualidade de vida.
Que país é este em que se fala tanto do passado do adversário e tão pouco do futuro do Brasil? Aliás, de um Brasil que está quebrando!
Criticar é necessário. Fiscalizar governos e expor erros faz parte da democracia. O problema é quando a crítica se torna a única proposta. Quando o candidato sabe explicar detalhadamente tudo o que o outro fez de errado, mas não consegue dizer, com a mesma clareza, o que pretende fazer de diferente.
A polarização rende votos. Alimenta torcidas. Produz engajamento e transforma a política em espetáculo. Mas não constrói hospitais, não melhora escolas, não gera empregos e não resolve os problemas que continuam esperando por soluções.
Talvez a pergunta da música precise ser atualizada para as eleições de outubro: que país queremos ser depois das urnas?
O país que continuará escolhendo seus representantes pelo tamanho do ódio que sentem pelo outro lado? Ou aquele que finalmente começará a exigir menos ataques e mais projetos?
Em outubro, haverá vencedores e derrotados. Mas a verdadeira vitória não deveria pertencer à esquerda ou à direita, a um partido ou a um líder político.
O Brasil que deveria sair vencedor das eleições é aquele em que candidatos sejam cobrados por suas ideias, e não apenas por sua capacidade de atacar. Um Brasil onde propostas valham mais do que slogans e soluções sejam mais importantes do que a destruição do adversário.
Porque, se depois de mais uma eleição continuarmos apenas olhando para o outro lado e perguntando quem está errado, talvez a pergunta continue sendo a mesma:
Que país é este?
Edison Pires















