Terapia como rotina de saúde precisa ganhar o mesmo status de outras especialidades médicas
Publicado em:
5 de janeiro de 2026 às 15:00:00

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Adoecimento emocional cresce no país e especialistas defendem que a TRG seja incorporada à rotina de cuidado em saúde mental
A consolidação dos transtornos emocionais como uma das principais causas de incapacidade no mundo reacende o debate sobre o lugar da terapia na rotina de saúde. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que a depressão afeta cerca de 322 milhões de pessoas e teve aumento superior a 18% em uma década, com aproximadamente 11,5 milhões de brasileiros impactados.
No campo da ansiedade, o Transtorno de Ansiedade Generalizada apresenta prevalência global de 3,7% e chega a 5,1% na população brasileira. Em paralelo, a fibromialgia atinge cerca de 2,5% da população mundial, com forte associação a dor crônica, depressão e ansiedade.
Para o psicólogo, pesquisador e fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT), Jair Soares dos Santos, doutorando em Psicologia na Argentina e desenvolvedor da Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), esses números reforçam a necessidade de tratar o cuidado emocional como parte do check-up preventivo. “A saúde psíquica não pode entrar na agenda apenas quando há colapso. Assim como exames de sangue ou avaliação cardiológica são feitos antes de um problema grave, a terapia precisa olhar para registros emocionais que vêm se acumulando em silêncio e já impactam sono, corpo e relações”, afirma.
Os limites dos modelos tradicionais também pressionam por novas abordagens. Revisões recentes destacam que, mesmo com múltiplas opções farmacológicas e psicoterapias estruturadas, apenas cerca de um terço dos pacientes com depressão alcança remissão completa dos sintomas, com risco elevado de recaídas.
Estudos em países da América Latina apontam prevalência próxima de 29% de depressão resistente ao tratamento, chegando a cerca de 40% no Brasil.
No campo da ansiedade, pesquisas indicam que terapias convencionais, como a Terapia Cognitivo-Comportamental associada a medicamentos, melhoram sintomas, mas não garantem proteção duradoura nem evitam o retorno de crises em grande parte dos casos.
É nesse contexto que a TRG vem sendo estudada como uma abordagem complementar. “A metodologia se baseia em princípios de neuroplasticidade e no reprocessamento de memórias associadas a experiências adversas, em vez de atuar na ressignificação cognitiva. A técnica é estruturada em cinco protocolos sequenciais, cronológico, somático, temático, futuro e de potencialização que buscam acessar eventos marcantes da infância à vida adulta, mapear respostas corporais, identificar padrões recorrentes, trabalhar cenários futuros temidos e fortalecer recursos internos.
Uma revisão crítica publicada em 2024 na revista Mentalis descreve a TRG como uma abordagem natural e adaptativa, aplicada em quadros de depressão, ansiedade, fibromialgia, ideação suicida, transtorno de pânico, transtorno de estresse pós-traumático e compulsão alimentar, com redução consistente de sintomas em estudos iniciais e relatos clínicos. Os autores ressaltam, porém, que ainda são necessários ensaios clínicos robustos para consolidar a evidência e definir parâmetros de uso em larga escala.
No campo dos transtornos depressivos, um artigo recente relata quatro casos de pacientes com depressão, ansiedade e ideação suicida que não haviam obtido resposta satisfatória com terapias convencionais. Após ciclos de TRG, os participantes relataram interrupção dos episódios depressivos, diminuição significativa da ansiedade e anulação da ideação suicida, com melhora da percepção de qualidade de vida.
Todos eles conseguiram desmame medicamentoso sob supervisão psiquiátrica. “O objetivo não é substituir a medicina, e sim abordar a raiz emocional que mantém o quadro ativo. Quando o sistema nervoso deixa de reagir como se o perigo ainda estivesse presente, sintomas como desesperança crônica e pensamentos de morte perdem força”, resume Soares.
Na fibromialgia, condição marcada por dor difusa e comprometimento emocional, um estudo de caso publicado em periódico internacional descreve uma paciente que, após anos de tratamento com medicamentos e Terapia Cognitivo-Comportamental sem remissão, passou por 12 sessões de TRG ao longo de quatro meses.
Questionários aplicados antes e depois do processo mostraram melhora em indicadores de satisfação com a vida, relações afetivas, autoconfiança profissional e visão de futuro. As crises de dor tornaram-se cada vez mais raras até cessarem, com manutenção dos resultados por mais de dois anos de acompanhamento.
As investigações também apontam para a relação entre sintomas físicos sem causa orgânica clara e registros emocionais não processados. Revisões sobre ansiedade, depressão e somatização indicam que uma parcela relevante das queixas em atenção primária envolve dores crônicas, fadiga, distúrbios de sono e mal-estar persistente em pessoas com histórico de sobrecarga emocional ou trauma prévio.
Na prática clínica, parte desses pacientes circula por diferentes especialidades, com múltiplos exames normais, sem encontrar explicações satisfatórias. “Quando o corpo repete um sintoma sem que os exames mostrem alteração, muitas vezes ele está cumprindo um papel de mensageiro. Se o tratamento se limita a silenciar o sinal, sem investigar o que o produz, o problema tende a retornar por outra via”, diz o pesquisador.
Para especialistas ligados ao IBFT, o desafio nos próximos anos é aproximar o discurso da prevenção emocional da rotina dos serviços de saúde, de empresas e da população em geral. A proposta é que pessoas busquem acompanhamento antes de crises evidentes, em situações como irritabilidade constante, sensação de urgência interna, anestesia afetiva, uso crescente de medicamentos apenas para “aguentar o dia” ou repetição de dores e sintomas sem diagnóstico orgânico conclusivo.
Soares defende que esse movimento requer mudança cultural, mas também uma base científica sólida. Nos últimos anos, o IBFT estruturou um departamento de pesquisa, aprovou projetos em comitês de ética no Brasil e passou a apresentar trabalhos em congressos nacionais e internacionais sobre o uso da TRG em depressão, ansiedade, fibromialgia e ideação suicida.
“Terapia não deveria ser lembrada apenas em momentos de colapso. Se o cuidado emocional entrar para o calendário com a mesma naturalidade de exames e consultas de rotina, a tendência é reduzir afastamentos, evitar agravamentos e diminuir o peso silencioso que hoje recai sobre indivíduos, famílias e sistemas de saúde”, conclui.




















