Meu filho “adolesceu”, e agora? 8 dicas para lidar com essa fase
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20 de janeiro de 2026 às 15:22:06

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Em um dia os filhos querem dormir agarrados ao ursinho, no outro pedem privacidade para tudo. De repente, a criança doce deu lugar a um adolescente que busca incansavelmente por independência, a qual passa mais tempo com os fones de ouvido e que, vez ou outra, questiona os limites da casa. A adolescência chega deste jeito mesmo: silenciosa, intensa, cheia de contradições; bagunçando a rotina, a casa e emoções da família inteira.
Segundo educadores, essa é uma fase de intensas transformações exige dos adultos – mãe, pai ou responsáveis, que muitas vezes se sentem perdidos e se perguntando se estão fazendo certo - uma dose extra de paciência, acolhimento, limites claros, carinho e, principalmente, uma mudança na forma como se conectam com os filhos em crescimento.
Contudo, a adolescência abre espaço para conversas mais profundas, descobertas, novos olhares e vínculos que se transformam e amadurecem. Para ajudar nessa travessia, quatro especialistas reuniram oito dicas afetuosas para aproximar adolescentes e seus responsáveis.
1. Escute seu filho e leve a sério seus sentimentos
Escutar de verdade um filho adolescente é mais do que ouvir palavras, é abrir espaço para que ele se expresse sem medo de ser julgado. Muitas vezes, os pais se esquecem de que também já passaram por essa fase no passado, e acabam romantizando a própria adolescência, lembrando apenas dos momentos bons e apagando as emoções e dores típicas desse período. No entanto, para o jovem que está vivendo a fase, as emoções são intensas, genuínas e profundamente reais.
Quando os adultos acolhem esses sentimentos com respeito, tentando compreender o ponto de vista do filho em vez de corrigi-lo imediatamente, criam um ambiente seguro no qual o jovem pode confiar, se abrir e aprender a navegar em suas próprias tempestades internas. A escuta com interesse verdadeiro, a conexão olho no olho e procurar a identificação da necessidade que está por trás do que o filho está contando, são passos fundamentais de uma linguagem empática. Muitas vezes os jovens não querem soluções imediatas nem conselhos, mas sentir que são compreendidos, importantes e acolhidos.
“É nessa escuta atenta, sem interrupções, pressa ou julgamento, que o diálogo encontra espaço para florescer”, afirma a psicóloga, pedagoga e gestora da Escola Internacional de Alphaville – EIA (Barueri/SP), Ana Claudia Favano.
2. Crie e explique as regras
Estabelecer limites claros é essencial para oferecer segurança emocional aos adolescentes. Um exemplo simples é a rotina de estudos: em vez de decretar que “o celular está proibido até terminar tudo”, o adulto pode se sentar com o adolescente, negociar horários possíveis e reforçar a importância do acordo. “A regra precisa existir, mas acompanhada de empatia; e os filhos precisam entender o porquê da existência de cada uma, que valor a sustenta, dessa forma haverá compreensão de fato das consequências aplicadas a uma eventual quebra de confiança, as quais, necessariamente precisam estar relacionadas diretamente ao ato, pois não faz sentido proibir o filho de ir à piscina se ele bateu em um colega no condomínio”. Nesse caso, deve deixar de conviver com os colegas do condomínio por um tempo até que retome a consciência dos seus atos.
Explicar o porquê das regras é importante e esse entendimento pode ser construído em pequenas conversas do dia a dia. Se a regra é não dormir tarde durante a semana, vale explicar que o sono interfere diretamente na memória, no humor e até no desempenho escolar. Se o combinado é não ir sozinho a determinadas festas, faz sentido contextualizar questões de segurança e responsabilidade. Quanto mais o jovem enxerga lógica e cuidado por trás das orientações e combinados, menor é a resistência, e maior é o vínculo com os responsáveis.
Os pais devem evitar o autoritarismo, com imposição de regras sem abertura para diálogo; nem a permissividade, que deixa o jovem sem direções. Combinados precisam ser fortalecidos e bem determinados. “A firmeza com gentileza deve ser prioridade e referência, e traz acolhimento. As duas coisas precisam caminhar juntas”, explica Ana Claudia.
3. Aceite que seu filho vai preferir os amigos
Na adolescência, os amigos ganham um protagonismo que, para muitos pais, pode parecer brusco ou até doloroso. De repente, o filho que queria passar o sábado inteiro em casa prefere a companhia do grupo da escola, do time ou da internet. Isso não significa rejeição familiar, mas um movimento natural do desenvolvimento, em que o jovem testa sua identidade fora do núcleo familiar.
“Os vínculos de amizade, no âmbito da experiência escolar, desempenham papel central na formação emocional e relacional dos estudantes”, explica a coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick (São Paulo/SP), Renata Lima. “É nesse espaço que o adolescente aprende a negociar posições, conviver com a discordância, construir pertencimento e elaborar, de forma progressiva, as frustrações próprias da vida em grupo.”
Para os pais, a dica é acolher essas novas escolhas sem ironias ou cobranças e, sempre que possível, mostrar interesse pelas amizades do filho: perguntar quem são, como se conheceram, o que gostam de fazer juntos. Essa aproximação, sem invasão, faz com que o jovem entenda que há espaço para crescer com os pais, e não longe deles. Do contrário, o jovem se fecha e passa a não apresentar os amigos, nem compartilhar as atividades e descobertas que faz com eles.
4. Jamais faça ameaças ou comparações
Quando o clima esquenta e o adolescente testa os limites, é comum que, na tentativa de retomar o controle, pais recorram a frases duras como “se continuar assim, vai perder tudo" ou “olha como seu irmão é diferente”. No entanto, ameaças e comparações fragilizam a relação, aumentam a sensação de inadequação e fazem o jovem se fechar.
A orientação é substituir o impulso punitivo por conversas firmes e objetivas, com foco no comportamento, não no indivíduo. Em vez de comparar, descreva o impacto do que aconteceu. “Quando você não avisa que vai se atrasar, eu fico preocupado e não sei se você está seguro”. Esse tipo de comunicação, direta e sem humilhação, ensina responsabilidade sem corroer a autoestima. “Estratégias fundamentadas na ameaça tendem a gerar obediência pontual, mas fragilizam os vínculos de confiança no processo educativo”, reforça Renata.
5. Seu filho talvez não seja tão especial
Apesar de parecer uma verdade dura de aceitar, reconhecer que o filho é um ser humano comum, com qualidades e limitações, é um presente emocional. Muitos pais, na tentativa de proteger, acabam elogiando de forma exagerada ou criando expectativas irreais em relação aos filhos. O problema é que o adolescente, ao notar que não é perfeito, pode se sentir fraudulento ou insuficiente.
A dica é celebrar conquistas reais, valorizar o esforço e acolher as dificuldades sem supervalorizar ou minimizar. Se ele receber uma nota baixa, por exemplo, não é necessário dizer que ‘a prova estava injusta’ ou que ‘o professor pegou pesado’. Em vez disso, vale perguntar como foi o processo, o que dificultou e o que pode ser feito diferente na próxima vez. “Quando os pais reconhecem a realidade, o adolescente aprende a reconhecer a própria força e a lidar com frustrações sem desmoronar”, diz a pedagoga e diretora pedagógica do Brazilian International School – BIS (São Paulo/SP), Audrey Taguti.
6. Deixe que o jovem erre e aprenda com os erros
Errar faz parte da construção da autonomia. Ainda assim, muitos pais, por medo do sofrimento do filho, tentam resolver tudo: ligam para professores, intervêm em brigas de amigos, organizam tarefas atrasadas. Essa proteção excessiva, embora bem-intencionada, impede que o adolescente desenvolva responsabilidade e senso de consequência.
Uma boa prática é permitir pequenos erros seguros: esquecer o material da escola, perder o horário da lição, atrasar-se para uma atividade. São situações incômodas, mas que ensinam mais do que longas explicações. O papel dos pais é estar por perto, ajudar a refletir e ajustar a rota, não evitar todo obstáculo. “A autonomia nasce quando o jovem percebe que é capaz de resolver problemas reais. Lembre-se de que a adolescência é uma fase de mudanças e desafios, mas com amor, paciência, compreensão e apoio, a família pode ajudar o seu filho a navegar por essa fase com sucesso”, afirma Audrey.
7. Tenha tempo de qualidade — que seja simples, mas constante
Com agendas lotadas e rotinas corridas, muitas famílias acreditam que tempo de qualidade precisa ser um evento especial. Mas, para o adolescente, momentos curtos e consistentes podem ser mais valiosos do que eventos grandiosos. Cozinhar juntos uma vez por semana, caminhar até a padaria, assistir a um episódio de série, ou revisar horários da semana no domingo à noite são situações cotidianas, que podem reforçar a relação de apoio e escuta.
É fundamental que esse tempo seja sem distrações: sem celular, sem pressa, sem julgamentos. “Quando o adulto se faz presente de fato, mesmo que por 15 minutos por dia, o adolescente entende que é visto e importante”, destaca Lívia Martins, diretora pedagógica do colégio Progresso Bilíngue. Esses rituais fortalecem o vínculo e criam uma memória emocional que acompanhará o jovem pela vida adulta.
8. Busque apoio: você também está aprendendo
A adolescência não é um desafio apenas para os jovens; é também um período de transformação para os adultos. Muitos pais se cobram em serem perfeitos e sentem culpa ao perder a paciência ou não saber o que fazer diante de uma crise emocional do filho. Por isso, buscar apoio é um ato de coragem, não de incompetência.
Conversar com outros pais, buscar apoio da escola, procurar orientação profissional, ler sobre o tema ou trocar experiências com quem já lidou com essas situações pode trazer novas perspectivas e aliviar a pressão. “Pais que se cuidam conseguem cuidar melhor”, afirma Lívia. Ao reconhecer seus limites, o adulto se torna um exemplo vivo de saúde emocional para o adolescente, mostrando que ninguém precisa enfrentar a vida sozinho.
As especialistas
Ana Claudia Favano é fundadora e atual gestora da Escola Internacional de Alphaville. É psicóloga; pedagoga; educadora parental pela Positive Discipline Association/PDA, dos Estados Unidos; e certificada em Strength Coach pela Gallup. Especialista em Psicologia da Moralidade, Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização, Educação Emocional Positiva, Convivência Ética e Dependência Digital. Dedicada à leitura e interessada por questões morais, éticas, políticas, e mobiliza grande parte de sua energia para contribuir com a formação de gerações comprometidas e responsáveis.
Audrey Taguti acumula 41 anos de experiência e trabalho em Educação. É formada em Magistério e Pedagogia, possui pós-graduações em Psicopedagogia e Bilinguismo e é especialista em Alfabetização. É diretora pedagógica do Brazilian International School – BIS, de São Paulo/SP desde a fundação do colégio, em 2000.
Lívia Martins é pedagoga formada pela Unicamp, com MBA em Gestão Escolar pela USP-Esalq e especializações nas áreas de Tecnologia Educacional (USP-ICMC) e Neurociência e Psicologia Positiva (PUC-PR), Lívia tem mais de 10 anos de experiência em sala de aula como professora. Em 2015, iniciou sua trajetória na gestão, atuando em diferentes papéis. É diretora pedagógica das unidades Progresso Bilíngue.
Renata Lima é coordenadora do Ensino Médio, leitora ávida e entusiasta da cultura, com mais de 20 anos de experiência na educação básica e internacional. Ao longo de sua trajetória, liderou projetos acadêmicos que articulam currículo, competências socioemocionais e experiências de aprendizagem de excelência conectadas à vida real, à cultura popular e ao território. Atuou em instituições de renome, nas quais desenhou e implementou programas inovadores voltados ao protagonismo juvenil, à dupla certificação e à formação integral.




















