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Gasolina com 32% de etanol pode causar problemas? Montadoras contestam estudos do governo

Publicado em:
15 de julho de 2026 às 19:28:00
Gasolina com 32% de etanol pode causar problemas? Montadoras contestam estudos do governo
Divulgação
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A decisão do governo federal de elevar de 30% para 32% a quantidade obrigatória de etanol anidro misturado à gasolina abriu uma nova disputa entre o setor de biocombustíveis e a indústria automotiva.
Enquanto o Ministério de Minas e Energia afirma que a gasolina E32 foi testada e não apresentou impactos significativos no funcionamento dos veículos, Anfavea e Abeifa, que representam fabricantes e importadores, dizem que faltam estudos específicos e conclusivos sobre a compatibilidade da nova composição com toda a frota brasileira.

A mudança foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE, inicialmente por 180 dias, com possibilidade de prorrogação pelo mesmo período.

Segundo o governo, o aumento deverá reduzir em aproximadamente 900 milhões de litros por ano a necessidade brasileira de importar gasolina, além de gerar uma demanda adicional próxima de 1 bilhão de litros de etanol.


A discussão, porém, não envolve apenas os benefícios econômicos e ambientais do biocombustível. O principal questionamento das fabricantes está na velocidade da mudança e na ausência, segundo as entidades, de ensaios de durabilidade direcionados especificamente à mistura de 32%.

“A Anfavea reafirma o apoio aos biocombustíveis como uma importante vantagem competitiva do Brasil para a descarbonização da mobilidade. No entanto, é contrária à elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32% sem estudos técnicos específicos e conclusivos que comprovem a segurança e a compatibilidade com a frota brasileira”, informou a entidade que representa as montadoras.


A Abeifa, representante das marcas importadoras, também se posicionou contra a adoção imediata da nova gasolina. “Soltamos uma carta ao governo falando sobre os impactos desse aumento. Nossas associadas terão que fazer um trabalho junto à matriz para adaptar os motores para os 32%.

A Abeifa é contra o aumento neste momento. Entendemos os benefícios, mas precisamos de tempo para adaptar nossos motores”, declarou a entidade.


Governo afirma que a gasolina E32 foi testada

O Ministério de Minas e Energia sustenta que estudos realizados antes da aprovação indicaram comportamento semelhante entre a E32 e as gasolinas com menor percentual de etanol.

Segundo o governo, “a mistura E32 apresentou desempenho equivalente ao observado nas misturas com menores teores de etanol, sem impacto significativo na operação dos veículos”.


A controvérsia está na abrangência desses ensaios. Os testes realizados anteriormente pelo Instituto Mauá de Tecnologia foram desenvolvidos principalmente para avaliar a passagem da gasolina E27 para a E30.

Naquele programa, foram analisados desempenho, emissões, dirigibilidade, partida a frio e compatibilidade dos veículos com a nova formulação.

As associações do setor automotivo afirmam, entretanto, que esses ensaios não tinham como objetivo validar a adoção permanente da E32. Também não teriam contemplado uma avaliação prolongada da durabilidade de todos os sistemas de alimentação, especialmente nos veículos projetados exclusivamente para gasolina.


Documento enviado anteriormente ao Ministério de Minas e Energia por Anfavea, Abeifa e Sindipeças afirmava que nenhum dos testes realizados para a aprovação da E30 havia sido desenvolvido especificamente para validar uma mistura obrigatória de 32%.

Outro ponto levantado pelas entidades é a margem de tolerância permitida na fiscalização do combustível. Com a gasolina oficialmente definida como E32, o percentual encontrado na bomba poderá, dentro dos limites regulatórios, se aproximar de 34%.

Essa diferença é considerada pequena para um automóvel flex, capaz de funcionar com qualquer proporção de gasolina e etanol. Para um veículo exclusivamente a gasolina, entretanto, a mudança pode ultrapassar o percentual considerado durante seu desenvolvimento e sua homologação.


Carros flex devem sentir pouca diferença

Nos veículos flex produzidos no Brasil, o impacto imediato tende a ser reduzido. Esses motores possuem sensores e mapas eletrônicos capazes de identificar a proporção entre gasolina e etanol e ajustar automaticamente o tempo de injeção e o ponto de ignição.

O sistema já é preparado para trabalhar desde gasolina com etanol anidro até etanol hidratado vendido separadamente nas bombas. Por isso, a passagem de 30% para 32% não deve provocar falhas generalizadas nesses automóveis.


Isso não significa que o motorista não perceberá nenhuma mudança. Como o etanol possui menor quantidade de energia por litro do que a gasolina, o aumento da participação do biocombustível pode elevar discretamente o consumo e reduzir a autonomia.

A diferença entre E30 e E32 tende a ser pequena em cada abastecimento, mas pode se tornar perceptível ao longo do tempo, especialmente em veículos que rodam grandes distâncias.

Em compensação, o etanol possui maior octanagem e aumenta a resistência do combustível à detonação. Motores modernos e devidamente calibrados podem aproveitar essa característica para trabalhar com maior eficiência, desde que a central eletrônica e o sistema de injeção tenham sido desenvolvidos para essa composição.


Importados exclusivamente a gasolina exigem atenção

Os importados movidos somente a gasolina são um dos principais motivos da reação da Abeifa. Muitos desses veículos foram desenvolvidos para países onde a mistura normalmente varia entre E5 e E10. Em alguns mercados, o limite indicado no manual é E10 ou E15.

Embora as unidades vendidas oficialmente no Brasil geralmente recebam calibrações e adaptações específicas, nem todos os projetos foram concebidos originalmente para trabalhar continuamente com mais de 30% de etanol.


O sistema de gerenciamento eletrônico pode até compensar parte da diferença por meio da sonda lambda e dos ajustes de injeção. No entanto, essa capacidade possui limites. Quando a proporção de etanol supera a faixa prevista no projeto, podem ocorrer correções excessivas da mistura, aumento do tempo de abertura dos bicos, perda de desempenho, dificuldade de partida e acendimento da luz da injeção.

Também existe preocupação com veículos importados de maneira independente e automóveis trazidos ao Brasil antes da implantação de calibrações específicas para o combustível nacional.


Carros antigos estão entre os mais vulneráveis

Os maiores riscos aparecem nos automóveis antigos, carburados ou movidos exclusivamente a gasolina. Esses veículos não possuem sensores capazes de identificar automaticamente a composição do combustível.

A regulagem do carburador, o avanço de ignição e a quantidade de combustível admitida pelo motor foram definidos para uma gasolina com características diferentes. Com uma proporção maior de etanol, a mistura entre ar e combustível pode ficar mais pobre.

Isso ocorre porque o etanol exige uma quantidade proporcionalmente maior de combustível para realizar a combustão correta.


Fonte: R7

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