Cérebro e Política: A Juventude no Parlamento, o que podemos esperar?
Publicado em:
19 de outubro de 2026 às 16:40:00


Crédito Imagem:
Divulgação
Por Dr. Kleber Duarte neurocirurgião
A presença de parlamentares cada vez mais jovens no cenário político reacende um debate frequente: qual é a relação entre a idade e a maturidade necessária para tomar decisões de grande repercussão que afetam toda a sociedade? A neurociência traz contribuições valiosas para essa reflexão ao estudar o desenvolvimento do cérebro humano.
A tese popular de que o cérebro humano só amadurece por volta dos 25 anos tem sólida base científica, embora esse número não seja um limite rígido.
O cérebro não se desenvolve por igual ou de forma repentina; ele passa por uma transformação contínua desde o nascimento e se estende pela terceira década de vida, ou mais.
Durante esse percurso, ocorre a inativação total ou parcial de conexões em desuso e o fortalecimento das vias neurais mais utilizadas.
O ponto crítico desse processo está no ritmo diferente do amadurecimento entre duas áreas fundamentais. De um lado, temos o sistema límbico, estrutura responsável pelo processamento das emoções, pela busca por recompensas e pelas reações impulsivas. Sob influência hormonal, essa região atinge a maturidade funcional mais cedo.
Por outro lado, o córtex pré-frontal, localizado na parte frontal do cérebro, é a última região a concluir o seu desenvolvimento. Ele é a sede das chamadas funções executivas, encarregadas do controle de impulsos, do planejamento de longo prazo, da avaliação de riscos e do raciocínio ponderado.
Essa defasagem temporal cria uma janela na juventude em que o "motor" das emoções opera com maior intensidade, enquanto o "freio" da razão ainda passa por ajustes. No exercício de um cargo político, essa dinâmica neurobiológica pode se traduzir em maior vulnerabilidade à impulsividade, busca por validação rápida e certa dificuldade em mensurar os impactos sistêmicos de leis a longo prazo.
A ciência não pretende estigmatizar a juventude muito menos criar barreiras etárias, até porque o ritmo de maturação varia para cada indivíduo. A compreensão do desenvolvimento cerebral nos lembra que o equilíbrio ideal nos espaços de decisão surge da união entre a coragem e a inovação dos mais jovens e a regulação emocional e a prudência conferidas pela maturidade.
Em contrapartida, o cérebro jovem apresenta elevada plasticidade e flexibilidade cognitiva, trazendo ousadia, capacidade de inovação e facilidade para absorver transformações sociais e tecnológicas.
A neurociência nos oferece uma chave de leitura essencial: a tomada de decisão complexa não depende apenas da inteligência fluida, mas da integração madura entre emoção e razão. Contudo, a biologia não determina o caráter ou a capacidade de um indivíduo de forma absoluta. Assim, não deve ser utilizada como um instrumento de estigmatização ou exclusão política.
Aos 21 anos, idade mínima constitucional para a posse de deputados no Brasil, o indivíduo possui plena capacidade civil e capacidade cognitiva funcional, podendo se responsabilizar por atos e comportamentos.
Sobre a Dr. Kleber Duarte, Neurocirurgião: Dr. Kleber Duarte é médico neurocirurgião com quase 30 anos de experiência na área de neurocirurgia funcional e dor. Atualmente é coordenador do Serviço de Neurocirurgia para Saúde Suplementar e Neurocirurgia em Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Tem amplo conhecimento e alta qualificação em técnicas cirúrgicas e de estereotaxia para tratamento de doenças que comprometem o sistema motor e em dores crônicas.
















