Pai de santo denuncia prefeitura de São Roque após pedido para evento religioso de candomblé ser negado
Publicado em:
11 de setembro de 2023 às 12:30:00

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Líder religioso pediu espaço público e policiamento em São Roque (SP) para realizar um evento da religião candomblé, mas pedido foi negado pela prefeitura. Dois meses depois, Executivo apoiou marcha de grupo evangélico na cidade.
Matéria: Reprodução G1 Tv Tem
Um líder religioso registrou uma denúncia na Secretaria de Justiça e Cidadania de São Paulo contra a Prefeitura de São Roque após ter o pedido para realização de um evento que pretendia promover religiões de matriz africana recusado. Ainda conforme a denúncia, a prefeitura apoiou evento de grupo evangélico na cidade.
O pedido protocolado na prefeitura em 23 de maio afirmava que o evento tinha como objetivo desmistificar a figura de exu e combater a intolerância religiosa contra religiões de matriz africana.
Yuri Ducca Soares Silveira, de 23 anos, conhecido como pai de santo Yuri D'Ogun, responsável pelo pedido, solicitou à prefeitura o uso de um estacionamento público próximo ao cemitério municipal, para o evento que seria em 10 de junho.
Conforme consta no documento, o evento seria sem fins lucrativos e pediria aos participantes a entrega de um quilo de alimento que seria dado as pessoas em situação de vulnerabilidade social. O evento contaria com a presença de líderes religiosos e autoridades políticas.
Em 6 de junho, a prefeitura respondeu a solicitação, negando o pedido, conta Yuri.
No documento que o g1 teve acesso, a prefeitura cita o artigo 19 da Constituição Federal e afirma que "o Estado não pode embaraçar o funcionamento de igrejas e cultos religiosos, aceitando todas as crenças religiosas, porém, o Estado não pode contribuir para o desenvolvimento ou para o estabelecimento de cultos religiosos, devendo se abster de subsidiar ou de colaborar para celebração de cultos."
Nascido e morador de São Roque, Yuri está há 14 anos no candomblé. Ele disse ao g1 que estava empolgado com a realização do evento, pois pretendia trazer mais conhecimento sobre a sua fé à população da cidade.
"O terreiro da minha mãe de santo, que já faleceu, é um dos mais antigos de São Roque, existe há mais de 75 anos. Acho que é importante resgatar essa cultura afro-brasileira e que há muito tempo é esquecida e deixada de lado. Conheço muitas pessoas que frequentam terreiros escondidos por medo do que vão falar. Por isso, surgiu a ideia de levar mais conhecimento sobre a religião para conseguir descontruir esses tabus.". Comentou.
Marcha religiosa
Cerca de dois meses após negar o pedido do pai de santo, a Prefeitura de São Roque foi apontada como apoiadora do evento "Marcha da Paz", que foi realizada em 26 de agosto e teve concentração do público em uma praça e fechamento de vias da cidade para a passagem da marcha.
No site da prefeitura, em fevereiro, foi divulgada a agenda com alguns eventos que seriam realizados na cidade em 2023. Na agenda, já constava a data marcada para acontecer a marcha.
A Marcha da Paz foi organizada pela bateria de samba "batucada abençoada", ligada à religião evangélica. Em São Roque, o evento teve show gospel e o público presente levantou bandeiras com dizeres cristãos.
No dia do evento, em 26 de agosto, a prefeitura publicou nas redes sociais um comunicado informando sobre a marcha e a interdição de algumas ruas e avenidas para que os participantes pudessem caminhar.
Representação no Ministério Público
O deputado estadual do Rio de Janeiro, Átila Nunes, fez uma representação no Ministério Público do Estado de São Paulo, na qual pede ao órgão que investigue o prefeito de São Roque, Guto Issa, por suposto crime de racismo religioso.
A Federação das Religiões Afro-brasileiras (Afrobras), repudiou o ocorrido e afirmou que o Poder Público deve apoiar todas as manifestações religiosas, independentemente da fé praticada.
Nota da prefeitura
Questionada pelo g1, a prefeitura de São Roque disse que o motivo do impedimento se deu pelo uso de um espaço no cemitério municipal, o que seria proibido pela constituição, embora não tenha apontado qual artigo constitucional proíbe o ato.
O g1 ressaltou que o espaço solicitado, segundo Yuri, não seria dentro do cemitério, mas em uma área externa. No entanto, a prefeitura não comentou a respeito.
A Prefeitura de São Roque ainda disse que "as ações apoiadas são eventos de caráter social e que ocorrem em espaços convencionais de circulação de pessoas, como ruas e praças. Entre os exemplos está a Marcha da Paz, que promoveu a união entre as pessoas, inclusive de crenças distintas".
O g1 ressaltou que o evento, promovido pelo pai de santo, teria arrecadação de alimentos que seriam doados e se isso caracterizaria o caráter social, apontado pela prefeitura para que esta entre como apoiadora de um evento. No entanto,
A prefeitura não comentou sobre a arrecadação de alimentos que ocorreria no evento religioso de Yuri.
Por fim, a prefeitura informou que é comprometida com a população, sendo terminantemente contrária a atos de intolerância, que prejudicam as relações pessoais, geram desconfiança e hostilidade entre pessoas, situação jamais desejadas por uma gestão que busca encontrar espaço comum.

















