Estamos atrasados na formação técnica - por Edison Pires
Publicado em:
6 de março de 2026 às 20:55:00

Divulgação
Crédito Imagem:
Acompanhei atentamente os dados divulgados esta semana pelo Ministério do Trabalho, por meio do Novo Caged, sobre o desempenho de Araçariguama na geração de empregos formais em janeiro de 2026. Os números, frios e objetivos, revelam um saldo negativo que, para um município do nosso porte, não pode ser tratado com naturalidade.
Foram 401 admissões contra 538 desligamentos. Um saldo de -137 vagas com carteira assinada. A maior parte das perdas ocorreu nos setores de Serviços, Indústria e Comércio — justamente pilares da economia local. Não se trata de estatística distante: é renda que deixa de circular, são famílias que passam a reorganizar o orçamento e empresas que sentem o impacto direto na produção e no consumo.
Mas há um fenômeno ainda mais preocupante por trás desses números.
Aqui na empresa, durante a sempre produtiva “hora do cafezinho”, ouço relatos que se repetem: cresce o número de pessoas que optam pela informalidade. Jovens e adultos que preferem trabalhar por conta própria, fazer “bicos” ou empreender sem vínculo formal, priorizando a flexibilidade de “ser o próprio patrão” em vez da estabilidade e dos direitos garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho.
E essa mudança de comportamento não é apenas conversa. Aqui na empresa sentimos isso na prática. Há vagas abertas há mais de dois meses — inclusive para funções que exigem baixa qualificação — e não conseguimos preenchê-las. Três jovens contratados recentemente, entre 20 e 25 anos, simplesmente deixaram de comparecer poucos dias depois. Um deles, soube-se, voltou para sua cidade de origem. Sem explicações mais profundas. Simples assim.
Enquanto vivemos essa realidade, causa estranhamento acompanhar os anúncios nacionais que apontam recordes no mercado de trabalho e sucessivas quedas no desemprego. Na metodologia do IBGE, quem não procura emprego não é considerado desempregado. Ainda que esteja vivendo de auxílio governamental, de trabalhos informais ou dependendo da renda de terceiros.
Na teoria, os números podem fechar. Na prática, porém, a equação é outra: vagas em aberto, dificuldade de encontrar mão de obra qualificada e uma geração que, cada vez mais, busca ocupações que “não tomem muito tempo”. Não por acaso, muitas empresas passaram a priorizar profissionais acima dos 35 anos, vistos como mais comprometidos e estáveis.
O impacto dessa mudança vai além do presente. Ao ingressar cada vez mais tarde no mercado formal, essa geração deixa de contribuir regularmente para o INSS. No futuro, isso pode pressionar ainda mais o sistema previdenciário, ampliando o desequilíbrio entre quem contribui e quem recebe benefícios. Soma-se a isso o aumento da dependência de programas sociais, mantidos por arrecadação tributária — arrecadação que depende, justamente, da formalização do trabalho e da atividade econômica estruturada.
Não se trata de condenar o empreendedorismo individual nem de ignorar as transformações do mundo do trabalho. A flexibilidade veio para ficar. Mas é preciso equilíbrio. Uma economia forte não se sustenta majoritariamente na informalidade.
No caso de Araçariguama, já passou da hora de o município deixar o debate e buscar alternativas concretas. A instalação de uma escola técnica de qualidade, alinhada às demandas do setor produtivo local, deixou de ser projeto desejável para se tornar necessidade urgente. Capacitar jovens, aproximá-los das empresas e criar perspectivas reais de carreira pode ser o caminho para não apenas reverter esse cenário, mas criar a possibilidade de um futuro.
Os números de janeiro não são apenas um resultado mensal. São um alerta. Ignorá-lo pode custar caro nos próximos anos.
Edison Pires

















